Tudo em bloodsports nos indica a ação e não a consequência. O som dos nova-iorquinos, contudo, soa mais à terceira lei de Newton do que às duas que as precedem: não é sobre ser-se sanguinário, é sobre se ver esses traços num espelho. O som, consequente do punk, vive num plano pós, de dissonâncias e rompimento, mas também nas suas facetas mais melodiosas e letárgicas, com andamentos mais lentos a carregar de outras emoções cada momento, antes de o explodir em distorções.
O assombro raramente é um efeito de estúdio, é uma decisão de composição. Os Dumbhead, trio de Melbourne, tomaram-na logo à partida: sob quase tudo o que gravam corre um coro operático, litúrgico e deslocado, como se uma missa tivesse sido levada para uma cave e ali arrastada para dentro de um sampler. É esse o alicerce de um trip hop sem nostalgia, onde Maayan Barnatan constrói as bases e as guitarras, Zach Salmon dobra tudo em dub e delays feitos ao vivo numa mesa Tascam, e Billie Raffety, com formação em jazz, atravessa as peças com uma voz que ora paira ora ancora. O trompete abre o som ao cinematográfico, os graves fecham-no sobre o corpo. Entre o downtempo e o IDM, os Dumbhead escrevem canções que só se percebem por inteiro quando tocam alto e à nossa frente.
O que sabemos de cosmologia e física explica alguns dos fenómenos mais misteriosos que nos rodeiam, mas nem mesmo o que sabemos sobre o efeito Faraday explica o efeito gyrofield na pista de dança. Quase como um wormhole que dobra o espaço tempo sobre si mesmo, a produtora nascida em Hong Kong e radicada no Reino Unido consegue atalhar entre os anos 90 e o futuro por meio do drum and bass com uma desenvoltura peculiar, usando todos os elementos estéticos do género e negando-os de forma muito deliberada. O resultado é pejado de batidas quebradas, mas também de progressões harmónicas inusitadas, guinadas ritmicas para outros géneros a velocidades vertiginosas e escolhas surpreendentes nos DJ sets, claramente influenciados por um ascendente cultural menos ligado ao Atlântico. gyrofield é meditação e pura expressão física ao mesmo tempo.
Há sempre uma certa expectativa de que a linguagem do folk ou de qualquer tipo de folclore seja o da simplicidade. Não que isso seja verdade, mas há limites impostos aos instrumentos acústicos que pretendem a complexidade em prol de uma melodia orelhuda, de uma letra metricamente perfeita e uma mensagem arredonda. A estadunidense Hannah Frances cumpre com todo o cânone, mas acrescenta-lhe a desenvoltura que dilapidaram da folk ao longo das décadas: há progressões inusitadas, arranjos elaborados e vida além do formato canção na sua música. E claro, há uma voz possante, harmonias a abrir caminho para melodias demovedoras e os motivos estéticos que fazem a delícia de qualquer trovador, e dos seus ouvintes. Vamos balançar juntos em Guimarães, e a banda sonora é de Hannah Frances.
Toda a abstração se projeta, e mesmo os pontos de fuga escapam num sentido comum. Há algo na artesania de juntar palavras que destaca o folk arrancado a dedilhado de guitarra de Jana Horn do demais, algo que vai desde o comum contemplativo de um momento ao cristalizar sentimentos em ações. A cantautora texana faz isto particularmente, cozendo cada intricado tecido de letras com uma linha de fé, que usa para cobrir uma voz aveludada e o condão do que só o que acontece entre costas nos Estados Unidos permite. A paz que os seus clamores carregam é algo que se ouve com deleite.
A britânica Kavari existe em permanente clivagem, quebrando, guinando, negando, criando uma identidade feita daquilo que não e esculpindo um corpo discográfico de delapidações. Ora retirando a batida do club até chegar ao ambiente, ora contornando o bom senso para saturar e clippar kicks, graves e batidas, a produtora cria a versão mais hóstil de todas as suas possibilidades e uma expressão de total êxtase e purga. Claro que seria fácil dizer que tudo é esperado, mas o mais justo é intuir pelo avanço da sua estreia na XL Recordings e afirmar logo que haverá ritmos quebrados, andamentos acelerados e subgraves rimbombantes o suficiente para abanar pavimentos.
Nada do que se olha contra a luz devolve o seu rosto. É essa a condição de Contre Jour: a imagem não acompanha o som nem o som serve a imagem, ambos ocupam o mesmo corpo e disputam-lhe o contorno até que só reste silhueta. Lee Ranaldo e Leah Singer habitam essa fricção há mais de três décadas, ele a desmontar a guitarra até ao que nela não é nota, ela a correr, encravar, dobrar e queimar película em tempo real. A dada altura a guitarra é largada no ar e passa a oscilar sobre a sala; o que dela sai deixou de ser execução para ser gravidade, distância, e o feedback que a distância fabrica. A cada passagem o pêndulo apaga uma parte da projeção e acende outra. Ficamos por baixo, no intervalo, a ver o que a luz nos tira.
Vindo diretamente do epicentro do hip hop, Liim é a melhor descrição sónica possível da quinta geração de rapper que nos poderia chegar, abraçando as linguagens quase despidas de conteúdo das expressões pop e revestindo-as com letras. A mensagem que devolve ao género não acontece em sacrifício de toda a melodia que as vozes contemporâneas carregam, e o Liim fá-lo com uma elevação singular. A sua música vive na fronteira entre a tradição, o r&b e o trap, vai buscar toda dissonância das alternativas e junta tudo num cancioeiro harmonioso. O que vier depois do primeiro álbum já tem a vida complicada, que a superação à primeira é proeza.
Toda a euforia é uma promessa adiada, e o trance percebeu isso antes de qualquer outro género: constrói-se para um momento que só existe enquanto está a chegar. Lorenzo Senni tomou essa promessa e recusou-se a cumpri-la. O italiano ficou com o que sobe, arrancou o que cai, e do supersaw, esse timbre que devia ser vulgar de tão gasto, extraiu um vocabulário inteiro: pontos de luz encavalitados, arpejos que não resolvem, tensão que se recusa a converter em alívio. Chamou-lhe trance pontilhista, editou-o na Warp, e desde a Presto!? foi puxando o resto de uma cena para o mesmo abismo lírico. Ouvi-lo é ficar suspenso na antecâmara da pista, onde os corpos já sabem o que fazer mas não lhes foi dado sinal. O êxtase não chega. É essa a questão.
Ambivalência é um conceito raramente aplicado para descrever música, mas que parece assentar nos Mandy, Indiana particularmente bem. A sua condição de dupla nacionalidade sem patriotismo, dividindo-se entre o Reino Unido e França, e a sua sonoridade tão eletrónica como punk, propaga-os por existências duplas e com uma sonoridade familiar e estranha, com uma plasticidade especial. Os sintetizadores emulam muito do que uma pista de dança procura, mas a intensidade imposta pela bateria e pela dissonância da guitarra bebem de géneros de música mais pesados; a timoneira Valentine Caulfield guia todo o caos em francês, ora declamado, ora cantado, ora gritado, guiando-nos com os diferentes registos pelos momentos das músicas. O resultado é livre, e o que fizerem com os vossos corpos durante o concerto livre será.
De break beat a blast beat são meia dúzia de caracteres, de pixels ou ideias, mas para quem vive no contexto da eletrónica pode parecer uma transição hercúlea. Felizmente que o contexto de aya, 96back e Jennifer Walton não é o normal e que esse salto se reduz ao espaço quântio, de coabitação simultânea entre os géneros extremos de guitarra e a produção super-elaborada que cada um dos produtores, individualmente, consegue engendrar. É extremo, é hyper, pop e metal maxxing, rage baiting sem clout e música que se disfarça de raive para criar melodias pop.
O duo Milkweed enterra-se profundamente no folclore das ilhas britânicas, principalmente da Irlanda, para encontrar as raízes de uma sonoridade que tanto se entranha que se estranha. A familiaridade de toda as narrativas que nos cantam parece distorcer-se numa contemporaneidade lofi que quase provoca uma disforia espacial. Nas suas canções, o celta torce e retorce ao centro de uma terra que partilha raízes com culturas e línguas indo-europeias, algo que parece transparecer na música. Milkweed é uma perfeita encarnação do chamado weird folk, que apesar de tudo o que parece forasteiro habitar na sua sonoridade, não chega para provocar uma distância irremediável. O concerto é o caminho que nos leva ao encontro.
A máquina não sonha, mas há muito que aprendeu a fingir que sim, e é nessa mentira útil que este encontro se instala. Mother Jupiter é o alter ego de Kevin Pires, músico e sound designer do Porto que trabalha a psicadelia menos como género e mais como método: som que narra, desloca, ocupa espaço e depois se aproxima até ao sussurro, sempre com a imaginação de quem ouve como destino final. Framed Nemesis, anagrama de Serafim Mendes, é o designer que constrói visuais que não ilustram nem acompanham, reagem: são controlados em tempo real e ao mesmo tempo controlados pela música. Em The Age of Spiritual Machines os dois meios entram em circuito fechado, cada um a alimentar e a corromper o outro, até que a realidade mecânica e o sonho orgânico deixem de se distinguir. Não é acompanhamento, é simbiose.
Nascido no momento em que black midi se suspendeu, My New Band Believe é o novo motor criativo de Cameron Picton, que desacelerou, desviou-se de fúrias anteriormente expressadas em dissonância e criou algo que aponta a uma maior harmonia e maturidade. Os avanços do álbum de estreia, de uma banda que viverá da verve de Picton rodeado dos amigos que a vida lhe der no momento, em vez de um ensemble fixo, mostram-nos melodias cuidadosamente engendradas no piano, com progressões carregadas de dramatismo, suspense e resolvidas em alta, pintadas com arranjos de cordas dignos da mais confiante música pop. A revolta virou beatitude.
A magia de Valentina Magaletti está, essencialmente, na capacidade camaleónica de desaparecer na música dos outros sem, com isso, deixar de se fazer ouvir. A contradição desta ideia dissipa-se em mais um admirável resultado sonoro na nova colaboração com produtora upsammy, que cria peças sincopadas para ritmar sons esparsos e espaciais, quase micro-fraseados tão recortadas que não chegam a criar mais do que uma sensação melódica, negando progressões e clichés de musicalidade. Esta expansão além do óbvio casa perfeitamente com a percussão desenvolta da irrequieta artista italiana, que define andamentos e ainda preenche o espaço que não se dava por vazio da upsammy. É tudo mais cheio, mas nem por isso mais denso.
Sem paredes que nos prendam, sem fronteiras que nos travem, a Comuna expande, contrai e desaparece como um organismo por si só, que não sendo ubíquo, ocupa e desocupa em expressões de vida e arte. Para nós os irrequietos, cada vez mais distantes fora daqui, este espaço de coabitação é cada vez mais premente; cada vez mais desligados, encontramos aqui o espaço para reclamar, recriar e regenerar as mitologias que nos têm externalizado para máquinas. Este organismo é vivo, ingere, expele, sua. O seu habitat é a pista de dança, o seu reino é a festa, a sua anatomia é a comunhão. A Comuna.