Tudo em bloodsports nos indica a ação e não a consequência. O som dos nova-iorquinos, contudo, soa mais à terceira lei de Newton do que às duas que as precedem: não é sobre ser-se sanguinário, é sobre se ver esses traços num espelho. O som, consequente do punk, vive num plano pós, de dissonâncias e rompimento, mas também nas suas facetas mais melodiosas e letárgicas, com andamentos mais lentos a carregar de outras emoções cada momento, antes de o explodir em distorções.
Guitarra delicadamente dedilhada e acompanhada de voz para preencher com assombro o mais próximo gravador, Dagmar Zuniga tem um cancioneiro despido, melodiosamente triste, mas belo como poucos. Tudo no seu som é devoção: das texturas lofi, que recriam a sensação de estarmos sentados a seu lado a ouvir as suas mais recentes gravações, à forma calma como posiciona a sua voz sobre as peças, numa combinação esvazia os espaços de qualquer luminosidade; há nela um coração inteiro que se sente no seu álbum de estreia. É esse mesmo coração que devemos ver exposto no Mucho Flow.
O que sabemos de cosmologia e física explica alguns dos fenómenos mais misteriosos que nos rodeiam, mas nem mesmo o que sabemos sobre o efeito Faraday explica o efeito gyrofield na pista de dança. Quase como um wormhole que dobra o espaço tempo sobre si mesmo, a produtora nascida em Hong Kong e radicada no Reino Unido consegue atalhar entre os anos 90 e o futuro por meio do drum and bass com uma desenvoltura peculiar, usando todos os elementos estéticos do género e negando-os de forma muito deliberada. O resultado é pejado de batidas quebradas, mas também de progressões harmónicas inusitadas, guinadas ritmicas para outros géneros a velocidades vertiginosas e escolhas surpreendentes nos DJ sets, claramente influenciados por um ascendente cultural menos ligado ao Atlântico. gyrofield é meditação e pura expressão física ao mesmo tempo.
Toda a abstração se projeta, e mesmo os pontos de fuga escapam num sentido comum. Há algo na artesania de juntar palavras que destaca o folk arrancado a dedilhado de guitarra de Jana Horn do demais, algo que vai desde o comum contemplativo de um momento ao cristalizar sentimentos em ações. A cantautora texana faz isto particularmente, cozendo cada intricado tecido de letras com uma linha de fé, que usa para cobrir uma voz aveludada e o condão do que só o que acontece entre costas nos Estados Unidos permite. A paz que os seus clamores carregam é algo que se ouve com deleite.
A britânica Kavari existe em permanente clivagem, quebrando, guinando, negando, criando uma identidade feita daquilo que não e esculpindo um corpo discográfico de delapidações. Ora retirando a batida do club até chegar ao ambiente, ora contornando o bom senso para saturar e clippar kicks, graves e batidas, a produtora cria a versão mais hóstil de todas as suas possibilidades e uma expressão de total êxtase e purga. Claro que seria fácil dizer que tudo é esperado, mas o mais justo é intuir pelo avanço da sua estreia na XL Recordings e afirmar logo que haverá ritmos quebrados, andamentos acelerados e subgraves rimbombantes o suficiente para abanar pavimentos.
Vindo diretamente do epicentro do hip hop, Liim é a melhor descrição sónica possível da quinta geração de rapper que nos poderia chegar, abraçando as linguagens quase despidas de conteúdo das expressões pop e revestindo-as com letras. A mensagem que devolve ao género não acontece em sacrifício de toda a melodia que as vozes contemporâneas carregam, e o Liim fá-lo com uma elevação singular. A sua música vive na fronteira entre a tradição, o r&b e o trap, vai buscar toda dissonância das alternativas e junta tudo num cancioeiro harmonioso. O que vier depois do primeiro álbum já tem a vida complicada, que a superação à primeira é proeza.
Ambivalência é um conceito raramente aplicado para descrever música, mas que parece assentar nos Mandy, Indiana particularmente bem. A sua condição de dupla nacionalidade sem patriotismo, dividindo-se entre o Reino Unido e França, e a sua sonoridade tão eletrónica como punk, propaga-os por existências duplas e com uma sonoridade familiar e estranha, com uma plasticidade especial. Os sintetizadores emulam muito do que uma pista de dança procura, mas a intensidade imposta pela bateria e pela dissonância da guitarra bebem de géneros de música mais pesados; a timoneira Valentine Caulfield guia todo o caos em francês, ora declamado, ora cantado, ora gritado, guiando-nos com os diferentes registos pelos momentos das músicas. O resultado é livre, e o que fizerem com os vossos corpos durante o concerto livre será.
Nascido no momento em que black midi se suspendeu, My New Band Believe é o novo motor criativo de Cameron Picton, que desacelerou, desviou-se de fúrias anteriormente expressadas em dissonância e criou algo que aponta a uma maior harmonia e maturidade. Os avanços do álbum de estreia, de uma banda que viverá da verve de Picton rodeado dos amigos que a vida lhe der no momento, em vez de um ensemble fixo, mostram-nos melodias cuidadosamente engendradas no piano, com progressões carregadas de dramatismo, suspense e resolvidas em alta, pintadas com arranjos de cordas dignos da mais confiante música pop. A revolta virou beatitude.
Sem paredes que nos prendam, sem fronteiras que nos travem, a Comuna expande, contrai e desaparece como um organismo por si só, que não sendo ubíquo, ocupa e desocupa em expressões de vida e arte. Para nós os irrequietos, cada vez mais distantes fora daqui, este espaço de coabitação é cada vez mais premente; cada vez mais desligados, encontramos aqui o espaço para reclamar, recriar e regenerar as mitologias que nos têm externalizado para máquinas. Este organismo é vivo, ingere, expele, sua. O seu habitat é a pista de dança, o seu reino é a festa, a sua anatomia é a comunhão. A Comuna.