Tudo em bloodsports nos indica a ação e não a consequência. O som dos nova-iorquinos, contudo, soa mais à terceira lei de Newton do que às duas que as precedem: não é sobre ser-se sanguinário, é sobre se ver esses traços num espelho. O som, consequente do punk, vive num plano pós, de dissonâncias e rompimento, mas também nas suas facetas mais melodiosas e letárgicas, com andamentos mais lentos a carregar de outras emoções cada momento, antes de o explodir em distorções.
Um dos nomes em clara ascendência na cena musical londrina, Charlie Osborne tem uma abordagem à música particularmente vantajosa. Artista visual de raiz, a maneira como aborda música é consequente, parecendo quase uma forma de povoar os espaços entre os fenómenos da sua vida e até para os completar. As suas peças, peculiarmente melódicas, vivem para projetar a sua voz e a maneira como em surdina como canta com fraseados esparsos, ruídos texturizados e uma panóplia de elementos aparentemente infindáveis. A surpresa existe nas suas performances apenas porque não podemos acompanhar um processo de criação tão atípico para som. Não sabemos se o seu cancioneiro será único, mas sabemos que é muito Charlie Osborne antes de ser qualquer outra coisa.
Todos os anos temos surpresas, e todos os anos convidamos o Lynce para nos surpreender. A nossa relação simbiótica de exploração do submundo da pista de dança tem-se desenvolvido assim há mais de uma década, e não vai mudar agora. Pedro Santos, residente no Porto e representante dos ritmos felinos do acid, do jungle e do hardcore prepara-se para, ora nos pratos, ora nos synths, criar um set de DJ e live que nos vai deixar imediatamente com saudades do que vamos estar a viver. E a ansiar por mais um Mucho Flow, e mais um set de Lynce na sua reserva natural, mesmo que enquanto espécie invasiva: Guimarães.
O assombro raramente é um efeito de estúdio, é uma decisão de composição. Os Dumbhead, trio de Melbourne, tomaram-na logo à partida: sob quase tudo o que gravam corre um coro operático, litúrgico e deslocado, como se uma missa tivesse sido levada para uma cave e ali arrastada para dentro de um sampler. É esse o alicerce de um trip hop sem nostalgia, onde Maayan Barnatan constrói as bases e as guitarras, Zach Salmon dobra tudo em dub e delays feitos ao vivo numa mesa Tascam, e Billie Raffety, com formação em jazz, atravessa as peças com uma voz que ora paira ora ancora. O trompete abre o som ao cinematográfico, os graves fecham-no sobre o corpo. Entre o downtempo e o IDM, os Dumbhead escrevem canções que só se percebem por inteiro quando tocam alto e à nossa frente.
O que sabemos de cosmologia e física explica alguns dos fenómenos mais misteriosos que nos rodeiam, mas nem mesmo o que sabemos sobre o efeito Faraday explica o efeito gyrofield na pista de dança. Quase como um wormhole que dobra o espaço tempo sobre si mesmo, a produtora nascida em Hong Kong e radicada no Reino Unido consegue atalhar entre os anos 90 e o futuro por meio do drum and bass com uma desenvoltura peculiar, usando todos os elementos estéticos do género e negando-os de forma muito deliberada. O resultado é pejado de batidas quebradas, mas também de progressões harmónicas inusitadas, guinadas ritmicas para outros géneros a velocidades vertiginosas e escolhas surpreendentes nos DJ sets, claramente influenciados por um ascendente cultural menos ligado ao Atlântico. gyrofield é meditação e pura expressão física ao mesmo tempo.
Há sempre uma certa expectativa de que a linguagem do folk ou de qualquer tipo de folclore seja o da simplicidade. Não que isso seja verdade, mas há limites impostos aos instrumentos acústicos que pretendem a complexidade em prol de uma melodia orelhuda, de uma letra metricamente perfeita e uma mensagem arredonda. A estadunidense Hannah Frances cumpre com todo o cânone, mas acrescenta-lhe a desenvoltura que dilapidaram da folk ao longo das décadas: há progressões inusitadas, arranjos elaborados e vida além do formato canção na sua música. E claro, há uma voz possante, harmonias a abrir caminho para melodias demovedoras e os motivos estéticos que fazem a delícia de qualquer trovador, e dos seus ouvintes. Vamos balançar juntos em Guimarães, e a banda sonora é de Hannah Frances.
Toda a abstração se projeta, e mesmo os pontos de fuga escapam num sentido comum. Há algo na artesania de juntar palavras que destaca o folk arrancado a dedilhado de guitarra de Jana Horn do demais, algo que vai desde o comum contemplativo de um momento ao cristalizar sentimentos em ações. A cantautora texana faz isto particularmente, cozendo cada intricado tecido de letras com uma linha de fé, que usa para cobrir uma voz aveludada e o condão do que só o que acontece entre costas nos Estados Unidos permite. A paz que os seus clamores carregam é algo que se ouve com deleite.
A britânica Kavari existe em permanente clivagem, quebrando, guinando, negando, criando uma identidade feita daquilo que não e esculpindo um corpo discográfico de delapidações. Ora retirando a batida do club até chegar ao ambiente, ora contornando o bom senso para saturar e clippar kicks, graves e batidas, a produtora cria a versão mais hóstil de todas as suas possibilidades e uma expressão de total êxtase e purga. Claro que seria fácil dizer que tudo é esperado, mas o mais justo é intuir pelo avanço da sua estreia na XL Recordings e afirmar logo que haverá ritmos quebrados, andamentos acelerados e subgraves rimbombantes o suficiente para abanar pavimentos.
Nada do que se olha contra a luz devolve o seu rosto. É essa a condição de Contre Jour: a imagem não acompanha o som nem o som serve a imagem, ambos ocupam o mesmo corpo e disputam-lhe o contorno até que só reste silhueta. Lee Ranaldo e Leah Singer habitam essa fricção há mais de três décadas, ele a desmontar a guitarra até ao que nela não é nota, ela a correr, encravar, dobrar e queimar película em tempo real. A dada altura a guitarra é largada no ar e passa a oscilar sobre a sala; o que dela sai deixou de ser execução para ser gravidade, distância, e o feedback que a distância fabrica. A cada passagem o pêndulo apaga uma parte da projeção e acende outra. Ficamos por baixo, no intervalo, a ver o que a luz nos tira.
Vindo diretamente do epicentro do hip hop, Liim é a melhor descrição sónica possível da quinta geração de rapper que nos poderia chegar, abraçando as linguagens quase despidas de conteúdo das expressões pop e revestindo-as com letras. A mensagem que devolve ao género não acontece em sacrifício de toda a melodia que as vozes contemporâneas carregam, e o Liim fá-lo com uma elevação singular. A sua música vive na fronteira entre a tradição, o r&b e o trap, vai buscar toda dissonância das alternativas e junta tudo num cancioeiro harmonioso. O que vier depois do primeiro álbum já tem a vida complicada, que a superação à primeira é proeza.
Toda a euforia é uma promessa adiada, e o trance percebeu isso antes de qualquer outro género: constrói-se para um momento que só existe enquanto está a chegar. Lorenzo Senni tomou essa promessa e recusou-se a cumpri-la. O italiano ficou com o que sobe, arrancou o que cai, e do supersaw, esse timbre que devia ser vulgar de tão gasto, extraiu um vocabulário inteiro: pontos de luz encavalitados, arpejos que não resolvem, tensão que se recusa a converter em alívio. Chamou-lhe trance pontilhista, editou-o na Warp, e desde a Presto!? foi puxando o resto de uma cena para o mesmo abismo lírico. Ouvi-lo é ficar suspenso na antecâmara da pista, onde os corpos já sabem o que fazer mas não lhes foi dado sinal. O êxtase não chega. É essa a questão.
Ambivalência é um conceito raramente aplicado para descrever música, mas que parece assentar nos Mandy, Indiana particularmente bem. A sua condição de dupla nacionalidade sem patriotismo, dividindo-se entre o Reino Unido e França, e a sua sonoridade tão eletrónica como punk, propaga-os por existências duplas e com uma sonoridade familiar e estranha, com uma plasticidade especial. Os sintetizadores emulam muito do que uma pista de dança procura, mas a intensidade imposta pela bateria e pela dissonância da guitarra bebem de géneros de música mais pesados; a timoneira Valentine Caulfield guia todo o caos em francês, ora declamado, ora cantado, ora gritado, guiando-nos com os diferentes registos pelos momentos das músicas. O resultado é livre, e o que fizerem com os vossos corpos durante o concerto livre será.
De break beat a blast beat são meia dúzia de caracteres, de pixels ou ideias, mas para quem vive no contexto da eletrónica pode parecer uma transição hercúlea. Felizmente que o contexto de aya, 96back e Jennifer Walton não é o normal e que esse salto se reduz ao espaço quântio, de coabitação simultânea entre os géneros extremos de guitarra e a produção super-elaborada que cada um dos produtores, individualmente, consegue engendrar. É extremo, é hyper, pop e metal maxxing, rage baiting sem clout e música que se disfarça de raive para criar melodias pop.
O duo Milkweed enterra-se profundamente no folclore das ilhas britânicas, principalmente da Irlanda, para encontrar as raízes de uma sonoridade que tanto se entranha que se estranha. A familiaridade de toda as narrativas que nos cantam parece distorcer-se numa contemporaneidade lofi que quase provoca uma disforia espacial. Nas suas canções, o celta torce e retorce ao centro de uma terra que partilha raízes com culturas e línguas indo-europeias, algo que parece transparecer na música. Milkweed é uma perfeita encarnação do chamado weird folk, que apesar de tudo o que parece forasteiro habitar na sua sonoridade, não chega para provocar uma distância irremediável. O concerto é o caminho que nos leva ao encontro.
A máquina não sonha, mas há muito que aprendeu a fingir que sim, e é nessa mentira útil que este encontro se instala. Mother Jupiter é o alter ego de Kevin Pires, músico e sound designer do Porto que trabalha a psicadelia menos como género e mais como método: som que narra, desloca, ocupa espaço e depois se aproxima até ao sussurro, sempre com a imaginação de quem ouve como destino final. Framed Nemesis, anagrama de Serafim Mendes, é o designer que constrói visuais que não ilustram nem acompanham, reagem: são controlados em tempo real e ao mesmo tempo controlados pela música. Em The Age of Spiritual Machines os dois meios entram em circuito fechado, cada um a alimentar e a corromper o outro, até que a realidade mecânica e o sonho orgânico deixem de se distinguir. Não é acompanhamento, é simbiose.
Nascido no momento em que black midi se suspendeu, My New Band Believe é o novo motor criativo de Cameron Picton, que desacelerou, desviou-se de fúrias anteriormente expressadas em dissonância e criou algo que aponta a uma maior harmonia e maturidade. Os avanços do álbum de estreia, de uma banda que viverá da verve de Picton rodeado dos amigos que a vida lhe der no momento, em vez de um ensemble fixo, mostram-nos melodias cuidadosamente engendradas no piano, com progressões carregadas de dramatismo, suspense e resolvidas em alta, pintadas com arranjos de cordas dignos da mais confiante música pop. A revolta virou beatitude.
Nikki Nair é dos mais interessantes produtores da nova onda americana de batidas quebradas e de ph negativo. Fez o seu percurso da forma certa, usando a pista de dança como laboratório de sonoridades, onde testava graves protuberantes, sintetizadores sincopados e beats recortados em andamentos acelerados o suficiente para impedir qualquer esboço de letargia. A fórmula, largamente aprovada na costa leste dos EUA, foi projetada para as suas produções. Podemos esperar uma pista de dança quente, com os sistemas AVAC avariados por ondas de jungle, electro, ghettotech e tudo o que possa ter baixos e batidas divertidas. Porque as melhores noites são as que não acabam, mas passam a correr (ou a dançar).
Construindo sobre o entulho sonoro do clubbing, o prolífico Ship Sket cria algo que extravaza o espaço que habita para se centrar em contexto diferentes. Apesar de se apropriar de todos os elementos do clubbing, com kicks intensos, melodias sintetizadas e ritmicamente aplicadas, a sobretexturização que aplicação na sua música, com sons saturados, granulados, que se vêem tanto quanto se ouvem, a forma como desacelera o andamento das suas peças impedem a dança física. O bambolear fica quase exclusivamente dedicado ao plano mental, embrulhado nos mantos turvos de sons que cria e onde as várias referências da eletrónica que usa de forma descontextualizada levantam algumas das melhores paredes em que podem embater vindas dum soundsystem. Não é por acaso que o produtor radicado em Manchester chegou ao catálogo da incontornável Planet Mu, e que chega ao cartaz do Mucho Flow.
Um trio de jovens estrelas britânicas, a gravidade dos thredd combina a massa talentosa e portentosa da produtora e DJ Imogen, do multi-instrumentalista e poliglota musical Max Winter e visão musical do diretor artístico Will Lister. O resultado, a potência da pop contida entre a delicadeza dream e a frieza clínica do trip-hop, ouve-se em dois belos conjuntos de canções, lançados em 2025 e 2026, com melodias em gancho — das que agarram, grudam e não largam, das que se cantam sem phones ou se transformam em loops insuspeitos. Vamos ouvi-los agora, em Guimarães e no futuro, como manda a etiqueta do Mucho Flow.
Touching Ice são um verdadeiro feixe de luz a entrar pelas sonoridades techno e industrial, injetando género particularmente dados ao bréu com alegria, ainda que delicada e contida. Pegando nos limites do quatro por quatro, o trio californiano contrasta o ruído e o peso do industrial ou a violência techno com a voz doce de Abigail Reese, que rompe com o negrume para elevar a temperatura para condições impróprias para máquinas, ideais para humanos prontos para incendiar a noite com possibilidades. Touching Ice são um condensar de estéticas que apelam aos ouvidos mais calejados tanto quanto aos aventureiros estreantes das noites do Mucho Flow. É festa garantida.
O coletivo de ravers ŪMËR representam a convergência de energias da cena clubbing vimaranense, num exercício para para perpetuar toda e qualquer noite que comece numa pista de dança no tempo e no espaço. Como agitadores locais, mas com larga experiência noutras latitudes e longitudes, devolvem a Guimarães a energia que lhes deu, com techno, batidas quebradas e o conhecimento de quem já pisou todos os pavimentos dos recintos de festa da cidade.
A magia de Valentina Magaletti está, essencialmente, na capacidade camaleónica de desaparecer na música dos outros sem, com isso, deixar de se fazer ouvir. A contradição desta ideia dissipa-se em mais um admirável resultado sonoro na nova colaboração com produtora upsammy, que cria peças sincopadas para ritmar sons esparsos e espaciais, quase micro-fraseados tão recortadas que não chegam a criar mais do que uma sensação melódica, negando progressões e clichés de musicalidade. Esta expansão além do óbvio casa perfeitamente com a percussão desenvolta da irrequieta artista italiana, que define andamentos e ainda preenche o espaço que não se dava por vazio da upsammy. É tudo mais cheio, mas nem por isso mais denso.
A música de Villa, Redhead existe num espaço liminal entre a pop com sonhos lúcidos, o lofi ambiet e os intentos folklóricos de uma guitarra americana. Como a latitute não trava o músico e produtor mentor do projeto João Maciel, a sucedânea de títulos que tem editado regularmente desde 2023, sempre pejados de delicadas melodias e cantares timidamente evocados, criaram-lhe um cancioneiro que é tanto um livro de canções como um catálogo de samples, prontos para criar um concerto único no momento que habita.
Programa
29.10 Quinta-feira
- bloodsports
- Lee Ranaldo & Leah Singer Live AV
- Lorenzo Senni
- Microplastics
- Mother Jupiter & Framed Nemesis (live a/v) Live AV
30.10 Sexta-feira
- Dumbhead
- Hannah Frances
- Jana Horn
- Liim
- Nikki Nair DJ Set
- Ship Sket DJ Set
- Touching Ice
- ŪMËR DJ Set
- upsammy & Valentina Magaletti
31.10 Sábado
- Charlie Osborne
- Dj Lynce DJ Set
- gyrofield DJ Set
- Kavari DJ Set
- Mandy, Indiana
- Milkweed
- My New Band Believe
- thredd
- Villa, Redhead
Sem paredes que nos prendam, sem fronteiras que nos travem, a Comuna expande, contrai e desaparece como um organismo por si só, que não sendo ubíquo, ocupa e desocupa em expressões de vida e arte. Para nós os irrequietos, cada vez mais distantes fora daqui, este espaço de coabitação é cada vez mais premente; cada vez mais desligados, encontramos aqui o espaço para reclamar, recriar e regenerar as mitologias que nos têm externalizado para máquinas. Este organismo é vivo, ingere, expele, sua. O seu habitat é a pista de dança, o seu reino é a festa, a sua anatomia é a comunhão. A Comuna.